NAOMI E BRUNA NO JAPÃO Ep. 3 — Entre pesquisa e esporte: minha experiência na Universidade de Okayama, por Bruna Miura

Outra parte muito marcante da minha experiência no Japão foi a oportunidade de vivenciar o dia a dia da Universidade de Okayama. Foi um período de muito aprendizado, não só acadêmico, mas também cultural e pessoal.
Eu fiz o meu estágio no Laboratório de Segurança da Informação, no Departamento de Engenharia, junto com mestrandos e doutorandos japoneses e estrangeiros. Por ser uma área focada em tecnologia, as ferramentas digitais eram muito utilizadas no cotidiano do laboratório. Toda a comunicação era feita pelo Microsoft Teams, com diferentes grupos para cada necessidade. Se alguém não pudesse ir ao laboratório em determinado dia, avisava em um grupo de presença. Grupos de estudo, reuniões e apresentações também tinham seus próprios canais na plataforma. E mesmo quando a maior parte dos membros estava presente presencialmente, tudo era transmitido on-line para quem estivesse ausente.
Lembro que achei engraçado quando o professor me perguntou se eu estava usando inteligência artificial para fazer minha pesquisa e que, se eu não estivesse, deveria começar imediatamente! Em um ambiente em que o tempo era tão precioso para todos, realmente não fazia sentido deixar de aproveitar a ajuda da tecnologia.
Durante esse período, meu principal trabalho foi escolher um tema de pesquisa relacionado à segurança da informação e desenvolvê-lo com orientação semanal do professor Yasuyuki Nogami. Como meu mestrado é em Administração com concentração em proteção de dados, essa experiência foi extremamente valiosa para mim. Ao mesmo tempo, acredito que também foi uma troca interessante para o laboratório. Enquanto muitos dos colegas tinham uma visão mais técnica — voltada ao “como” das coisas, criando sistemas e algoritmos — eu vinha de uma área que olha muito mais para os “porquês”. Isso me fez pensar em como muitas das soluções desenvolvidas ali poderiam ser aplicadas, na prática, dentro de empresas reais.
Meu professor falava inglês, então consegui desenvolver a parte técnica da pesquisa nesse idioma. Mas, no dia a dia, eu tentava conversar em japonês, principalmente porque a maioria dos colegas da minha sala era japonesa. O laboratório era dividido em três salas que acomodavam os membros do laboratório. A minha sala era um dos principais pontos de encontro para grupos de estudos e reuniões, então estava quase sempre cheia.



Três refeitórios à disposição
Eu ia ao laboratório de segunda a sexta, das 10h às 17h. O horário de almoço era das 12h às 13h e eu quase sempre almoçava no refeitório da própria universidade — que tinha refeições excelentes a preços muito baixos. Eram três refeitórios no total: Peach Union, Muscat Union e Pione Union, em referência às famosas frutas típicas da província de Okayama.
O cardápio era basicamente o mesmo, com algumas refeições especiais por tempo limitado durante determinadas épocas do ano. Meus pratos favoritos eram udon e kareraisu, que custavam cerca de 400 yen. O refeitório também vendia saladas e sobremesas em porções individuais.
Para beber, água gelada e chá verde quente eram liberados gratuitamente dentro do refeitório.
Após finalizar a refeição, cada estudante devolvia os pratos e talheres utilizados em uma esteira, que ia diretamente para a cozinha onde seriam lavados.
A universidade também contava com lojas de conveniência e diversas jidōhanbaiki (máquinas de venda automática) espalhadas pelo campus.



Clubes esportivos
Além da experiência acadêmica, a universidade também me proporcionou uma oportunidade maravilhosa: praticar esportes nos clubes universitários. Os clubes esportivos das universidades japonesas são muito fortes, disciplinados e dedicados, então fiquei muito feliz de poder treinar em um nível tão alto.
Participei de alguns treinos do clube de natação, que aconteciam de segunda a sábado, das 6h às 8h da manhã. O treino era misto, embora houvesse muito mais homens do que mulheres. Como era outono e a temperatura já estava baixa, eles não utilizavam a piscina aberta da universidade. Em vez disso, treinavam em um clube esportivo com piscina aquecida, que ficava a cerca de quinze minutos de bicicleta do campus.
Logo na entrada, era preciso tirar os sapatos. Todos faziam uma reverência de frente para a piscina e, 15 minutos antes das 6h, começávamos uma sessão de aquecimento e alongamento fora da água. Depois, todos iam ao vestiário trocar de roupa e o treino começava. Cada dia da semana tinha um foco diferente: alguns eram mais voltados para velocidade, outros para resistência. Ao final, tomávamos banho nos chuveiros ao lado da piscina antes de seguir para o resto do dia.



Também participei do clube de vôlei, que treinava quatro vezes por semana, das 18h às 21h. A quadra ficava dentro da universidade, no ginásio da Faculdade de Educação — e foi a primeira vez que vi uma quadra localizada no segundo andar de um prédio. Assim que entrávamos, também precisávamos tirar os sapatos, e os tênis de vôlei eram próprios para uso exclusivo na quadra, nunca sendo utilizados do lado de fora. Em alguns dias, o time feminino dividia o ginásio com o time masculino, cada um em sua quadra; em outros, o espaço era só nosso.


Uma coisa que achei muito interessante foi que nenhum dos clubes tinha treinador ou professor. Eram os próprios alunos que conduziam os treinos, geralmente os mais experientes ou os capitães dos times. No vôlei, por exemplo, a rede era montada e desmontada pelas próprias alunas em todos os treinos. Todos os clubes também contavam com managers, que também eram estudantes, mas tinham a função de ajudar no funcionamento do clube: cronometrar tempos, organizar materiais, cuidar da parte financeira, acompanhar viagens e dar suporte no que fosse necessário.
Conclusão
Essa experiência me deu um vislumbre da rotina de um estudante da Universidade de Okayama e me fez nutrir muito carinho pela instituição. Meus professores eram excelentes e meus colegas muito gentis. Os membros japoneses do laboratório organizaram uma festa de boas vindas aos novos estudantes estrangeiros em um restaurante tabehoudai e insistiram em pagar para nós.
No meu último dia no laboratório, todos também se reuniram para me presentear com uma toalha bordada da universidade.
Foi uma experiência muito enriquecedora, tanto na área acadêmica e profissional, como pessoal — e que certamente vou levar comigo por muito tempo. ❤️
Mas além disso, tivemos outras atividades durante o nosso período como bolsistas.
