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NAOMI E BRUNA NO JAPÃO Ep. 4 — Experiência em uma empresa japonesa, por Naomi Sato

Escrito por: Naomi Sato
Data de publicação: 17/08/2026 - 20:25

 

No meu primeiro dia de trabalho, sentei em minha mesa, liguei o computador e percebi que, dali em diante, tudo aconteceria em japonês. Os e-mails, as reuniões, os telefonemas, as conversas entre colegas, os alinhamentos de tarefas e até as apresentações. Naquele momento, senti uma mistura de entusiasmo e insegurança. Eu sabia que aqueles três meses seriam muito mais do que um intercâmbio profissional. Seria uma verdadeira imersão na cultura de trabalho japonesa.

Depois das aulas de japonês, iniciei essa nova etapa na Vis-à-Vis, uma empresa especializada em comunicação estratégica, branding, marketing, desenvolvimento de negócios e revitalização regional. A empresa reúne diferentes especialidades, desde planejamento estratégico e criação de campanhas até pesquisa, produção de conteúdo, eventos, recrutamento e novos negócios, conectando empresas, pessoas e comunidades para impulsionar o desenvolvimento econômico e social das regiões onde atua.

Minha jornada era de segunda a sexta-feira, das 9h30 às 18h30. A rotina exigia muito mais do que conhecimento do idioma. Aprendi a observar atentamente o contexto, praticar escuta ativa, confirmar expectativas antes de executar uma tarefa e não ter receio de fazer perguntas. Também recorri à tecnologia para registrar novos vocabulários e utilizar ferramentas de inteligência artificial generativa como apoio nas traduções e no aprendizado. Aos poucos, aquilo que parecia intimidante começou a se transformar em confiança.

Três departamentos, diferentes experiências

Como parte do programa, passei por três departamentos diferentes, permanecendo um mês em cada um deles, em um formato semelhante ao Job Rotation. Essa experiência me permitiu conhecer diferentes perspectivas da empresa e compreender como áreas distintas colaboram para um mesmo objetivo.

Meu primeiro departamento foi o de Planejamento Criativo. Participei da proposta de redesign de um site, acompanhei o processo criativo de vídeos promocionais, realizei pesquisas sobre turismo voltado ao bem-estar, apoiei a comunicação de um evento e contribuí para a direção criativa do site de divulgação dos serviços de outra área da empresa.

Foi também nesse período que vivi pequenos momentos que ficaram guardados na memória. Enquanto trabalhávamos, sempre havia uma música ambiente tocando. Em um dos dias, reconheci a melodia: era Bossa Nova. Sorri ao perceber como um ritmo brasileiro podia fazer parte do cotidiano de um escritório em Okayama.

Outro gesto que marcou minha chegada foram os convites para almoçar com meus colegas logo nos primeiros dias. Mais do que conhecer restaurantes excelentes e acessíveis, aqueles almoços me fizeram sentir acolhida. Entre conversas sobre trabalho, família e cotidiano, fui conhecendo melhor a cultura japonesa e construindo relações que tornaram a adaptação muito mais leve.

No segundo mês, atuei no departamento de Revitalização Regional. Diferentemente do primeiro, era comum encontrar poucas pessoas no escritório, pois a equipe passava boa parte do tempo visitando clientes, organizando eventos ou produzindo reportagens para a revista da empresa. Durante esse período acontecia o Okayama Coffee Festival, e tive a oportunidade de colaborar na preparação de materiais, além de oferecer suporte em traduções e no atendimento ao público e aos expositores vindos de Taiwan.

No último mês, trabalhei junto ao setor de Recursos Humanos, apoiando iniciativas de orientação profissional para estudantes do ensino fundamental e médio e processos de recrutamento e seleção para empresas clientes. Também escrevi um artigo para a publicação mensal da área apresentando o modelo brasileiro de estágio, compartilhei minha experiência profissional e apresentei práticas para reduzir vieses em processos seletivos, além de referências internacionais que poderiam inspirar novos projetos.

Trocas entre Brasil e Japão

Outro momento especial foi quando fui convidada a apresentar minha trajetória profissional para toda a equipe. Compartilhei minha experiência como gerente de projetos em uma consultoria brasileira de tecnologia e transformação digital e falei sobre alguns desafios relacionados ao posicionamento estratégico e ao marketing da empresa onde atuo no Brasil.

Em vez de apenas ouvir minha apresentação, cada pessoa contribuiu com sugestões baseadas em sua própria experiência. Reuni todos esses aprendizados, analisei o que fazia sentido para a realidade brasileira e, quando retornei ao Brasil, apresentei essas reflexões para a diretoria da empresa onde trabalho. Foi um exemplo concreto de como um intercâmbio profissional pode gerar impactos que continuam muito depois da viagem.

Ao longo dos três meses, percebi que o maior aprendizado não estava apenas nas atividades que realizei, mas na forma como aprendi a construir confiança em um ambiente completamente novo. A cada mudança de departamento, precisava recomeçar: conhecer novas pessoas, compreender novas formas de trabalho e descobrir como poderia contribuir de maneira relevante.

Conclusão

No meu último dia, fui surpreendida por uma despedida preparada com muito carinho. Recebi presentes da empresa e também das equipes pelas quais passei. Mais do que as lembranças materiais, aquele momento representou o reconhecimento das relações construídas ao longo da jornada e me emocionou profundamente.

Quando embarquei para o Japão, imaginava que voltaria com novos conhecimentos profissionais. Voltei com isso, mas também com algo muito maior: uma nova forma de enxergar colaboração, confiança, comunicação intercultural e aprendizado contínuo. Foram três meses que fortaleceram não apenas minha carreira, mas também minha identidade como nipo-brasileira e a certeza de que viver entre duas culturas é uma oportunidade única de crescimento.

Vem com a gente para o próximo episódio? 🤝🏼

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