Matsurizushi: uma tradição de Okayama que conquistou o paladar brasileiro
O Matsurizushi, também conhecido como Barazushi, é um prato tradicional da província de Okayama, no Japão, que reúne sabores, cores e histórias transmitidas de geração em geração. Mais do que uma receita, representa a generosidade, a união e o espírito de colaboração tão presentes na cultura japonesa.
Sua origem remonta ao período Edo (1603–1868), quando o senhor feudal de Okayama, Ikeda Mitsumasa, incentivou a simplicidade e a economia nas refeições. Segundo a tradição, os moradores encontraram uma maneira criativa de contornar essa orientação: preparavam um prato aparentemente simples, mas enriquecido com diversos ingredientes do mar e da terra. Assim teria surgido o Barazushi, que, nas ocasiões festivas, passou a ser conhecido também como Matsurizushi, ou sushi dos festivais.
Favorecida pelo clima ameno e pela abundância de produtos agrícolas e frutos do mar do Mar Interior de Seto, Okayama desenvolveu uma rica tradição culinária. O Matsurizushi tornou-se presença marcante nas celebrações de Ano-Novo, nos festivais sazonais, nos casamentos e em outras ocasiões especiais. Cada família tinha sua própria receita, adaptada aos ingredientes disponíveis e às tradições locais.
Uma característica especial desse prato é a generosidade de seu preparo. Antigamente, o Barazushi era colocado em caixas chamadas jubako e compartilhado com vizinhos, amigos e parentes. A beleza dos ingredientes e o cuidado com a apresentação expressavam o carinho de quem preparava e a alegria de quem recebia. Era uma maneira de fortalecer os laços entre as famílias e a comunidade.
A tradição que atravessou o oceano
A história do Matsurizushi no Brasil está intimamente ligada à dedicação das senhoras do Fujinbu, o departamento feminino da Associação Cultural e Recreativa Okayama Kenjin do Brasil.
Segundo o relato de Mieko Oka, em 1988, quando seu marido assumiu a presidência da associação, a família visitou o Japão no ano seguinte e foi a Okayama para cumprimentar o governador. Nessa ocasião, ela recebeu de sua cunhada o livro Okayama no Aji (O Sabor de Okayama), que reunia receitas tradicionais da província.
Mais tarde, quando a Kenren solicitou que as associações de cada província preparassem pratos típicos para os eventos de gastronomia regional (Kyōdōshoku) e de manifestações artísticas tradicionais (Kyōdo Gueinō), Mieko sugeriu a preparação do Matsurizushi.
O desafio, porém, era grande. Ao reproduzir a receita original do livro, o resultado ficou suave demais para o paladar brasileiro. Foram necessárias muitas experiências e degustações na sede da associação até que se chegasse ao equilíbrio ideal dos temperos. As senhoras mais experientes também contribuíram com suas receitas de família e, juntas, conseguiram chegar a uma combinação de sabores que agradou a todos.
Foi assim, com paciência, dedicação e trabalho coletivo, que o Matsurizushi de Okayama ganhou sua identidade brasileira, preservando a essência da receita japonesa e adaptando-se aos ingredientes disponíveis e ao gosto local.
Cinquenta senhoras e uma grande missão
Naquela época, o Fujinbu contava com aproximadamente 50 senhoras. Com tantas mãos trabalhando em conjunto, era possível preparar cerca de 600 porções de Matsurizushi e outras 300 de Hiruzen Okowa, um prato tradicional de arroz preparado no vapor.
Cada participante tinha sua especialidade. Algumas eram responsáveis pelo corte dos vegetais; outras cuidavam dos temperos, do arroz ou dos frutos do mar. Os associados também colaboravam, oferecendo ingredientes de suas próprias plantações e ajudando na preparação.
Antigamente, a associação comprava principalmente os frutos do mar, enquanto muitos dos demais ingredientes eram doados pelos próprios associados. O senhor Moriya, por exemplo, fornecia arroz de sua plantação e a raiz de lótus utilizada na receita. Já o saudoso senhor Koda era conhecido por preparar o kanpyō, a abóbora seca utilizada no prato.
Mieko recorda com carinho a colaboração de Dona Anita, do CEASA. Em uma ocasião, uma geada prejudicou a produção de ervilhas, dificultando a aquisição desse ingrediente. Sabendo da necessidade das senhoras, Dona Anita separou parte do produto que havia resistido ao frio e o entregou a elas. Pequenos gestos como esse demonstram o quanto a preparação do Matsurizushi sempre dependeu da solidariedade e da colaboração de muitas pessoas.
O cuidado com cada ingrediente
O segredo do Matsurizushi está na qualidade dos ingredientes e no cuidado dedicado a cada etapa do preparo.
O arroz é cozido com alga kombu para realçar seu sabor. Depois de pronto, recebe um tempero especial à base de vinagre, açúcar e saquê. Os vegetais são preparados separadamente para preservar suas características, enquanto os frutos do mar recebem os cuidados necessários para manter o sabor e a textura.
Entre os ingredientes utilizados estão camarão, cavala, lula, mexilhão, raiz de lótus (renkon), bardana (gobō), cogumelo shiitake, abóbora seca (kanpyō), gengibre e ervilha-torta. A cobertura é finalizada com finíssimas tiras de omelete, conhecidas como kinshi tamago, que conferem ao prato sua característica cor dourada.
A escolha dos produtos também acompanha as estações do ano. Em janeiro, por exemplo, procura-se gengibre fresco, que apresenta menos fibras. O vice-presidente Carlos Morinishi vai até Cocuera para comprar diretamente dos produtores o gengibre da primeira safra, que depois é cortado e conservado em vinagre.
Em maio, é época de procurar a raiz de lótus. Atualmente, muitos ingredientes são adquiridos no CEASA, enquanto outros são comprados em estabelecimentos especializados da Liberdade.
Como o clima brasileiro e a disponibilidade dos produtos são diferentes dos encontrados no Japão, foi necessário adaptar algumas escolhas. Mieko lembra que julho costuma ser um período favorável para comprar cavala e camarões a preços mais acessíveis. A associação conta também com a valiosa colaboração do associado Jiro Yamada, que fornece os frutos do mar diretamente da fonte. O tamanho dos camarões que ele consegue para o preparo do Matsurizushi costuma surpreender a todos, provocando espanto e admiração. Essa parceria é mais um exemplo da generosidade e do espírito de cooperação que tornam possível preservar essa tradição. A experiência ensinou que respeitar a tradição também significa saber adaptar-se às condições locais.
Uma receita feita por muitas mãos
Hoje, o preparo do Matsurizushi continua sendo uma atividade que mobiliza a associação. Embora o número de senhoras veteranas tenha diminuído, novos voluntários estão aprendendo as técnicas e assumindo diferentes tarefas.
Atualmente, são preparadas aproximadamente 250 porções. Cerca de 20 voluntários participam do dia da montagem, seguindo um cartaz com a relação dos ingredientes e a divisão das tarefas. Há especialistas e aprendizes: enquanto alguns cuidam do peixe e do corte preciso dos vegetais, outros ajudam a misturar o arroz, organizar os ingredientes e montar cada porção.
Mieko recorda com saudade a senhora Takeuchi, reconhecida por sua habilidade excepcional no corte da bardana, que faleceu recentemente. Sua lembrança representa tantas outras pessoas que dedicaram tempo, conhecimento e carinho à preservação dessa tradição.
Para Mieko, o Matsurizushi só pode ser preparado em grande quantidade graças à participação de todos. Cada contribuição, por menor que pareça, faz diferença. É esse espírito de cooperação que permite manter viva uma tradição que une gerações.
Preservar o passado, compartilhar o futuro
Ao longo do ano, o Matsurizushi é preparado em diferentes ocasiões, como o Ano-Novo, o Hinamatsuri, o Festival do Japão, o Keirōkai, dedicado aos idosos, e o Bōnenkai, a confraternização de encerramento do ano. No Festival do Japão, o prato também é comercializado, permitindo que pessoas de diferentes origens conheçam um pouco da cultura gastronômica de Okayama.
A história do Matsurizushi no Brasil é, acima de tudo, uma história de dedicação, amizade e continuidade. Das receitas familiares trazidas do Japão às adaptações realizadas em São Paulo, cada etapa carrega a memória daqueles que trabalharam para manter viva essa herança.
Ao saborear uma porção de Matsurizushi, encontramos muito mais do que arroz temperado, frutos do mar e vegetais cuidadosamente preparados. Encontramos a história de uma comunidade, o carinho das senhoras do Fujinbu e a generosidade de todos os associados que, ao longo dos anos, contribuíram para que essa tradição chegasse até nós.
Que as novas gerações continuem aprendendo, compartilhando e valorizando esse precioso legado de Okayama.
Bom apetite! Itadakimasu!