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NAOMI E BRUNA NO JAPÃO Ep. 3 — Experiência profissional em empresa e pesquisa em universidade 🍑

Escrito por: Bruna Miura
Data de publicação: 30/07/2026 - 12:41

Experiência em uma empresa japonesa, por Naomi Sato 

No meu primeiro dia de trabalho, sentei em minha mesa, liguei o computador e percebi que, dali em diante, tudo aconteceria em japonês. Os e-mails, as reuniões, os telefonemas, as conversas entre colegas, os alinhamentos de tarefas e até as apresentações. Naquele momento, senti uma mistura de entusiasmo e insegurança. Eu sabia que aqueles três meses seriam muito mais do que um intercâmbio profissional. Seriam uma verdadeira imersão na cultura de trabalho japonesa.

Depois das aulas de japonês, iniciei essa nova etapa na Vis-à-Vis, uma empresa especializada em comunicação estratégica, branding, marketing, desenvolvimento de negócios e revitalização regional. A empresa reúne diferentes especialidades, desde planejamento estratégico e criação de campanhas até pesquisa, produção de conteúdo, eventos, recrutamento e novos negócios, conectando empresas, pessoas e comunidades para impulsionar o desenvolvimento econômico e social das regiões onde atua.

Minha jornada era de segunda a sexta-feira, das 9h30 às 18h30. A rotina exigia muito mais do que conhecimento do idioma. Aprendi a observar atentamente o contexto, praticar escuta ativa, confirmar expectativas antes de executar uma tarefa e não ter receio de fazer perguntas. Também recorri à tecnologia para registrar novos vocabulários e utilizar ferramentas de inteligência artificial generativa como apoio nas traduções e no aprendizado. Aos poucos, aquilo que parecia intimidante começou a se transformar em confiança.

Como parte do programa, passei por três departamentos diferentes, permanecendo um mês em cada um deles, em um formato semelhante ao Job Rotation. Essa experiência me permitiu conhecer diferentes perspectivas da empresa e compreender como áreas distintas colaboram para um mesmo objetivo.

Meu primeiro departamento foi o de Planejamento Criativo. Participei da proposta de redesign de um site, acompanhei o processo criativo de vídeos promocionais, realizei pesquisas sobre turismo voltado ao bem-estar, apoiei a comunicação de um evento e contribuí para a direção criativa do site de divulgação dos serviços de outra área da empresa.

Foi também nesse período que vivi pequenos momentos que ficaram guardados na memória. Enquanto trabalhávamos, sempre havia uma música ambiente tocando. Em um dos dias, reconheci a melodia: era Bossa Nova. Sorri ao perceber como um ritmo brasileiro podia fazer parte do cotidiano de um escritório em Okayama.

Outro gesto que marcou minha chegada foram os convites para almoçar com meus colegas logo nos primeiros dias. Mais do que conhecer restaurantes excelentes e acessíveis, aqueles almoços me fizeram sentir acolhida. Entre conversas sobre trabalho, família e cotidiano, fui conhecendo melhor a cultura japonesa e construindo relações que tornaram a adaptação muito mais leve.

No segundo mês, atuei no departamento de Revitalização Regional. Diferentemente do primeiro, era comum encontrar poucas pessoas no escritório, pois a equipe passava boa parte do tempo visitando clientes, organizando eventos ou produzindo reportagens para a revista da empresa. Durante esse período acontecia o Okayama Coffee Festival, e tive a oportunidade de colaborar na preparação de materiais, além de oferecer suporte em traduções e no atendimento ao público e aos expositores vindos de Taiwan.

No último mês, trabalhei junto ao setor de Recursos Humanos, apoiando iniciativas de orientação profissional para estudantes do ensino fundamental e médio e processos de recrutamento e seleção para empresas clientes. Também escrevi um artigo para a publicação mensal da área apresentando o modelo brasileiro de estágio, compartilhei minha experiência profissional e apresentei práticas para reduzir vieses em processos seletivos, além de referências internacionais que poderiam inspirar novos projetos.

Outro momento especial foi quando fui convidada a apresentar minha trajetória profissional para toda a equipe. Compartilhei minha experiência como gerente de projetos em uma consultoria brasileira de tecnologia e transformação digital e falei sobre alguns desafios relacionados ao posicionamento estratégico e ao marketing da empresa onde atuo no Brasil.

Em vez de apenas ouvir minha apresentação, cada pessoa contribuiu com sugestões baseadas em sua própria experiência. Reuni todos esses aprendizados, analisei o que fazia sentido para a realidade brasileira e, quando retornei ao Brasil, apresentei essas reflexões para a diretoria da empresa onde trabalho. Foi um exemplo concreto de como um intercâmbio profissional pode gerar impactos que continuam muito depois da viagem.

Ao longo dos três meses, percebi que o maior aprendizado não estava apenas nas atividades que realizei, mas na forma como aprendi a construir confiança em um ambiente completamente novo. A cada mudança de departamento, precisava recomeçar: conhecer novas pessoas, compreender novas formas de trabalho e descobrir como poderia contribuir de maneira relevante.

No meu último dia, fui surpreendida por uma despedida preparada com muito carinho. Recebi presentes da empresa e também das equipes pelas quais passei. Mais do que as lembranças materiais, aquele momento representou o reconhecimento das relações construídas ao longo da jornada e me emocionou profundamente.

Quando embarquei para o Japão, imaginava que voltaria com novos conhecimentos profissionais. Voltei com isso, mas também com algo muito maior: uma nova forma de enxergar colaboração, confiança, comunicação intercultural e aprendizado contínuo. Foram três meses que fortaleceram não apenas minha carreira, mas também minha identidade como nipo-brasileira e a certeza de que viver entre duas culturas é uma oportunidade única de crescimento.

Experiência na universidade japonesa, por Bruna Miura

Entre pesquisa e esporte: minha experiência na Universidade de Okayama, por Bruna Miura 🎓🏊🏻‍♀️🏐

Outra parte muito marcante da minha experiência no Japão foi a oportunidade de vivenciar o dia a dia da Universidade de Okayama. Foi um período de muito aprendizado, não só acadêmico, mas também cultural e pessoal.

Eu fiz o meu estágio no Laboratório de Segurança da Informação, no Departamento de Engenharia, junto com mestrandos e doutorandos japoneses e estrangeiros. Por ser uma área focada em tecnologia, as ferramentas digitais eram muito utilizadas no cotidiano do laboratório. Toda a comunicação era feita pelo Microsoft Teams, com diferentes grupos para cada necessidade. Se alguém não pudesse ir ao laboratório em determinado dia, avisava em um grupo de presença. Grupos de estudo, reuniões e apresentações também tinham seus próprios canais na plataforma. E mesmo quando a maior parte dos membros estava presente presencialmente, tudo era transmitido on-line para quem estivesse ausente.

Lembro que achei engraçado quando o professor me perguntou se eu estava usando inteligência artificial para fazer minha pesquisa e que, se eu não estivesse, deveria começar imediatamente! Em um ambiente em que o tempo era tão precioso para todos, realmente não fazia sentido deixar de aproveitar a ajuda da tecnologia.

Durante esse período, meu principal trabalho foi escolher um tema de pesquisa relacionado à segurança da informação e desenvolvê-lo com orientação semanal do professor Yasuyuki Nogami. Como meu mestrado é em Administração com concentração em proteção de dados, essa experiência foi extremamente valiosa para mim. Ao mesmo tempo, acredito que também foi uma troca interessante para o laboratório. Enquanto muitos dos colegas tinham uma visão mais técnica — voltada ao “como” das coisas, criando sistemas e algoritmos — eu vinha de uma área que olha muito mais para os “porquês”. Isso me fez pensar em como muitas das soluções desenvolvidas ali poderiam ser aplicadas, na prática, dentro de empresas reais.

Meu professor falava inglês, então consegui desenvolver a parte técnica da pesquisa nesse idioma. Mas, no dia a dia, eu tentava conversar em japonês, principalmente porque a maioria dos colegas da minha sala era japonesa. O laboratório era dividido em três salas que acomodavam os membros do laboratório. A minha sala era um dos principais pontos de encontro para grupos de estudos e reuniões, então estava quase sempre cheia.

Eu ia ao laboratório de segunda a sexta, das 10h às 17h. O horário de almoço era das 12h às 13h e eu quase sempre almoçava no refeitório da própria universidade — que tinha refeições excelentes a preços muito baixos. Eram três refeitórios no total: Peach Union, Muscat Union e Pione Union, em referência às famosas frutas típicas da província de Okayama. 

O cardápio era basicamente o mesmo, com algumas refeições especiais por tempo limitado durante determinadas épocas do ano. Meus pratos favoritos eram udon e kareraisu, que custavam cerca de 400 yen. O refeitório também vendia saladas e sobremesas em porções individuais. 

Para beber, água gelada e chá verde quente eram liberados gratuitamente dentro do refeitório. 

Após finalizar a refeição, cada estudante devolvia os pratos e talheres utilizados em uma esteira, que ia diretamente para a cozinha onde seriam lavados.

A universidade também contava com lojas de conveniência e diversas jidōhanbaiki (máquinas de venda automática) espalhadas pelo campus. 

Além da experiência acadêmica, a universidade também me proporcionou uma oportunidade maravilhosa: praticar esportes nos clubes universitários. Os clubes esportivos das universidades japonesas são muito fortes, disciplinados e dedicados, então fiquei muito feliz de poder treinar em um nível tão alto.

Participei de alguns treinos do clube de natação, que aconteciam de segunda a sábado, das 6h às 8h da manhã. O treino era misto, embora houvesse muito mais homens do que mulheres. Como era outono e a temperatura já estava baixa, eles não utilizavam a piscina aberta da universidade. Em vez disso, treinavam em um clube esportivo com piscina aquecida, que ficava a cerca de quinze minutos de bicicleta do campus.

Logo na entrada, era preciso tirar os sapatos. Todos faziam uma reverência de frente para a piscina e, 15 minutos antes das 6h, começávamos uma sessão de aquecimento e alongamento fora da água. Depois, todos iam ao vestiário trocar de roupa e o treino começava. Cada dia da semana tinha um foco diferente: alguns eram mais voltados para velocidade, outros para resistência. Ao final, tomávamos banho nos chuveiros ao lado da piscina antes de seguir para o resto do dia.

Também participei do clube de vôlei, que treinava quatro vezes por semana, das 18h às 21h. A quadra ficava dentro da universidade, no ginásio da Faculdade de Educação — e foi a primeira vez que vi uma quadra localizada no segundo andar de um prédio. Assim que entrávamos, também precisávamos tirar os sapatos, e os tênis de vôlei eram próprios para uso exclusivo na quadra, nunca sendo utilizados do lado de fora. Em alguns dias, o time feminino dividia o ginásio com o time masculino, cada um em sua quadra; em outros, o espaço era só nosso.

Uma coisa que achei muito interessante foi que nenhum dos clubes tinha treinador ou professor. Eram os próprios alunos que conduziam os treinos, geralmente os mais experientes ou os capitães dos times. No vôlei, por exemplo, a rede era montada e desmontada pelas próprias alunas em todos os treinos. Todos os clubes também contavam com managers, que também eram estudantes, mas tinham a função de ajudar no funcionamento do clube: cronometrar tempos, organizar materiais, cuidar da parte financeira, acompanhar viagens e dar suporte no que fosse necessário.

Essa experiência me deu um vislumbre da rotina de um estudante da Universidade de Okayama e me fez nutrir muito carinho pela instituição. Meus professores eram excelentes e meus colegas muito gentis. Os membros japoneses do laboratório organizaram uma festa de boas vindas aos novos estudantes estrangeiros em um restaurante tabehoudai e insistiram em pagar para nós. 

No meu último dia no laboratório, todos também se reuniram para me presentear com uma toalha bordada da universidade. 

Foi uma experiência muito enriquecedora, tanto na área acadêmica e profissional, como pessoal — e que certamente vou levar comigo por muito tempo. ❤️

Mas além disso, tivemos outras atividades durante o nosso período como bolsistas. 

Vem com a gente para o próximo episódio? 🤝🏼

Confira as fotos abaixo:

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